| O CANTE
DO BALDÃO
Em volta de uma mesa sentam-se os cantadores,
normalmente juntinhos e sobre a mesma dispõem-se os
copos e coloca-se o mais. Buscam posições, procuram
parceiros, trocam olhares fugidios, disfarçadamente
miram a aparência dos concorrentes, tossem, pigarreiam,
limpam a garganta, passam sugestivamente a mão pelo
pescoço e invariavelmente lamentam-se pela sua fala
que hoje para nada presta.
Tenho estado tão constipado ... se calhar até
nem canto, é o costume dizerem.
Mas cantam sempre, é uma desculpa adiantada para qualquer
falho ou para iludir os outros se eles se fiarem nas queixas.
Entretanto, todos se aconchegam, ajeitando-se nos lugares
para darem largueza ao tocador. E a campaniça começa
a retenir a moda da marianita do princípio ao fim.
Sempre assim foi e assim será. Tal como o rumo das
cantigas, segue obrigatoriamente o percurso inverso ao sentido
dos ponteiros do relógio. É um preceito. Uma
regra que ficou estabelecida desde o início deste cante
para que cada vez que se juntam não tenham de estar
a preocupar-se com os pormenores da volta.
Mas depois dos primeiros acordes, os olhares fixam-se na boca
e os sentidos nos dizeres do cantador que é o mão.
Cresce a tensão, aumenta o desejo, redobra o frenesim
e o silêncio do principiante é insuportável.
O tocador que já percorreu a moda ponto por ponto então
sustem-se, já não abala, pisa as cordas com
os dedos esquerdos e desata a repetir a chamada com a unha
acrescentada do polegar direito fazendo soltar à viola
ganidos de impaciência. Chegados aqui, o cantador já
sem saída, ganha fôlego, fecha os olhos, enterra
a boina e lá vai.
Lançada a primeira cantiga, as demais já se
sucedem sem tanto receio, naquele dito rodar às avessas
do tempo.
Enquanto a vez não chega, matina-se na cantiga seguinte,
debica-se no petisco e vazam-se os copos. Pouco se fala para
não entreter, para não fazer fugir o tino e
a rima.
E aos dizeres dos cantadores os outros respondem no flagrante
só com incontidos acenos de cabeça ou piscadelas
de olho furtivas.
Quando chegar a sua vez logo ripostam se for caso disso e
se a habilidade lhes bastar. São regras, são
preceitos.
O cante depois começa a buscar-se a si próprio,
engendra um fundamento, tem de encontrar um rumo. E a poesia
fervilha, repentista, cortante, às vezes marota. De
tudo se trata, ali tudo se diz, rimando, com uma musicalidade
e uma entoação que nos transportam longe.
Os cantes são desafios à imaginação,
à inspiração e à resistência.
Duram horas a fio, sempre sem quebras nem pausas, penetram
pelas madrugadas como se o tempo a cantar não contasse.
O tocador nada lhes diz, ouve-os, olha-os, de quando em vez
deixa escapar um sorriso. Os outros levantam-se nos intervalos
da sua vez quando precisam de despejar o bebido, mas o mestre
aperta-se, sustem-se, para não quebrar a magia que
a viola e o rodopiar das razões geram em volta da mesa.
Discutem mil assuntos, acertam contas antigas, mas filosofam
invariavelmente acerca da valia da honra, do dinheiro, do
ferro, do ouro, do campo e da serra.
Que saber o seu, que arte a deles.
Do fundo de tal tempo, guardam a memória de cantares
antigos, de génios andantes que de feira em feira ganhavam
sustento e acrescentavam a fama.
Derivado do despique este cante arreigou-se nas fraldas da
serra*, ali se forjou e ali perdura, alimentado pela seiva
de gentes ricas em valores tradicionais e senhores plenos
da sua identidade.
Readquiriu, recentemente, grande fôlego esta expressão
vocal e poética tendo os seus intérpretes voltado
a sentir brio na sua arte. O baldão furtou-se a uma
morte anunciada e ganhou alma, alento, adeptos, ouvintes,
apreciadores. Tem, presentemente, tudo o que é necessário
para vencer o esquecimento e continuar a cantar-se no sentido
inverso ao dos ponteiros que marcam o ritmo dos dias.
José Francisco Colaço Guerreiro
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