| A CONTINUIDADE
DO CANTE
Basta olharmos para os nossos Grupos para constatarmos, triste
mas inevitavelmente, duas realidades:
1º - A elevada média etária
dos seus componentes.
2º - A sistemática ausência de um número
significativo de jovens entre o conjunto.
Ora, face a este circunstancialismo que
trespassa os corais, é óbvio que temos de concluir
pela necessidade de se alterar imediatamente esta verdade
sob pena de a médio prazo termos de assistir pesarosos
ao desaparecimento gradual e imparável dos Grupos.
E talvez seja esta a maior reflexão
a desenvolver pelos Grupos e por toda a gente que tenha alguma
responsabilidade pela preservação dos valores
culturais desta terra.
Aqui é a lei que ditará
a certeza da morte se não conseguirmos inverter, desde
já, uma tendência que há décadas
nos vem empurrando para este estado de envelhecimento onde
a renovação não acontece.
Sabemos que o cante lida com muitos e
graves problemas mas julgamos que é urgente fazer-se
uma pausa para olharmos à nossa volta e perguntarmos
que futuro podemos nós ter a continuarmos a palmilhar
este caminho donde a juventude está arredia.
Observando os Grupos impõe-se-nos
a imagem deles mesmos daqui a uma década. É
fácil imaginar a voz daquelas gargantas e a vitalidade
daqueles corpos já agora dados.
Por isso, antes de mais, a salvaguarda
do cante passa, obrigatoriamente, pela capacidade e imaginação
que tivermos para inverter esta tendência, para trazer
novas vozes e novos alentos aos nosso corais.
A constatação desta realidade
deixa-nos necessariamente tristes, quase que impotentes, mesmo
acabrunhados, porque é grande a impotência para
transformarmos em novo o que não remoçou e já
envelheceu.
Talvez por isso, voltamos sempre as costas
a este pensamento, não olhamos para o futuro, fixamo-nos
apenas na realidade do presente.
Mas hoje, mas a partir de agora, todos
devemos fazer um esforço imenso de modo a remar contra
a maré da indiferença e passarmos a preocupar-nos
em trazer jovens para o cante levando também o cante
até aos jovens.
A nossa experiência aplicada e
na prática desde há mais de quinze anos com
uma escola de cante - Os Carapinhas de Castro Verde, permite-nos
afiançar que se ousarmos desafiar a tal indiferença
e o comodismo, conseguiremos resultados admiráveis.
E por isso, dizemos que em torno de cada
Grupo Coral deve surgir, tem de ser criado um Grupo Infantil.
De cada Grupo Coral devem sair duas ou três vontades
para levarem por diante este projecto.
Aliás, é assim que fazem
os ranchos folclóricos, é assim que procedem
os clubes desportivos.
Toda a paciência do mundo não
é em demasia para se fazer vingar e dar continuidade
a este projecto, mas é a única forma de termos
a consciência tranquila por não permitirmos que
na nossa geração o cante seja silenciado nesta
terra.
Como dizíamos, basta romperem
duas ou três vontades em cada Grupo para se desencadear
o processo de revitalização que se impõe.
Junto dos estabelecimentos de ensino
devem divulgar a criação das escolas de cante,
procurando para o efeito a sensibilização dos
professores e, se possível, o envolvimento destes no
projecto.
Importante é também a adesão
dos pais e a sua participação na ideia de semear
esperança no futuro do cante.
Com o tempo, com uma vontade inquebrantável,
com sensibilidade e com mil cuidados, começaremos a
ver germinar a semente do nosso trabalho.
As escolas de cante têm de ser
espaços vivos e alegres onde as crianças se
sintam bem. Têm de ser um pretexto para o convívio,
para a confraternização, para a festa, para
a brincadeira também.
Não podemos espartilhar as crianças
em modelos de organização apropriados para adultos,
mas devemos saber introduzir, pouco a pouco, nos pequenos
cantores o gosto pela moda, o apreço pelo cante, o
sentir das raízes.
Como é óbvio, não
será fácil o convencimento generalizado de toda
uma população infantil para s sua adesão
à Escola do Cante. As resistências são
imensas, criadas por factores de ordem sociocultural e também
por motivos que se prendem com a realidade do cante e que
fazem dele um exercício de sacrifício e de rara
compensação.
Consideramos que a aposta tem de ser
feita a partir de hoje para que os futuros cantadores ainda
venham a tempo de segurar o testemunho que agora já
a custo agarramos.
Não há milagres, não
existem alternativas nem outras possibilidades para garantir
a continuidade da moda. Por isso não podemos regatear
esforços nem evitar cansaços. Urge enfrentar
esta realidade. Que todos os façam a partir de agora!
Alvito,14 de Outubro de 2001
José Francisco Colaço
Guerreiro
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